domingo, 8 de julho de 2012

Um Amigo

- Que queres ser quando fores grande? - perguntei eu a Um Amigo.
- Quero ser pai... - respondeu-me ele como se a resposta lhe parecesse óbvia - E tu?
- Quero ser o maior...
- E se não conseguires? - desafiou-me ele.
- O melhor... - retorqui eu.
- E se não conseguires? - desafiando-me de novo, franzindo o sobreolho.
Demorei mais algum tempo do que na anterior, mais para me recompor da surpresa que tive ao aperceber-me de quão rápido a resposta se formou na minha cabeça do que a pensar na resposta propriamente dita.
- Então não quero ser...

- Que pessimista! - retorquiu Um Amigo.
- Ou ambicioso, depende da perspectiva! - sendo a minha vez de o desafiar.

(...)

- Onde é que nós estávamos há 3 anos? - perguntou Um Amigo, não me dando tempo para responder - Ora, provavelmente a estudar para a segunda fase de exames do primeiro ano. Para aí para o recurso de Estatística II...
- Ou então embriagados... - completei.
- ... isto estava tudo sujo - continuou ele - e agora olha para aqui!
Apontou para a secretária e depois de uns segundos a fitá-la, continuou:
- Tudo arrumado...

- Estamos diferentes! - intervi eu depois de perceber que Um Amigo esperava que eu dissesse algo. - Estamos mais crescidos..
- Pois estamos...
- Mais conhecedores - disse eu - pelo menos!
- Concordou - disse Um Amigo - mais conhecedores, mais responsáveis, mais arrumados, mais vividos... Mais bonitos - sorrindo.
Sorri de volta. Pois era verdade.

(...)
- Que dia é hoje? - perguntou Um Amigo de forma retórica - 9 de Julho... Ora 9 de Julho de 2012. No dia 9 de Julho de 2015 havemos de estar aqui - apontando para o chão - a conversar e a ver no que nos tornámos. Combinado?
- Aceito o desafio.

(...)
- És servido? - perguntou-me ele com um pedaço de pão na mão.
- Não obrigado - disse eu distraidamente enquanto escrevia.
- É bom. É de mistura... - esperou que eu dissesse algo - Será que daqui a 3 anos - prosseguiu ele vendo que eu não lhe ia responder - vou continuar a comer pão de mistura e a beber leite de soja? Será que nos vamos continuar a preocupar ou vamos ser daqueles que vamos comer francesinhas e mariscada todas as noites só porque podemos? Só porque trabalhamos e temos dinheiro...

Um Amigo continuou naquilo que mais parecia um monólogo... Mas pôs-me a pensar...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Herança

Mas que Herança deixamos nós àqueles que nos seguem?

Por requintes se caminha magistralmente ao longo de todo o passeio. Para as ruas nem se olha, não vá tirar-nos a atenção do que temos à frente dos olhos! Podemos falhar um quadrado do passeio, ou pisar uma linha que os divida! Que choque! Que tortura para os obsessivos! Não interessa se por isso perdemos o vislumbre do melhor carro do mundo ou se deixámos de salvar alguém que se tenha atravessado de olhos fechados para o perigo do trânsito! Assim como assim, as passadas prévia e meticulosamente medidas e intencionalmente temporizadas têm o seu quê de sumptuosidade sobre qualquer outro acontecimento... Assim como assim, uma pessoa fecha os olhos para se descartar de pesos futuros enquanto os outros atravessam a rua para o outro lado!

E se vier alguém atrás de nós? Que Herança lhes deixamos?

E contentamo-nos com a magnificência da nossa pura existência...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Luto II

Porque está morto o grito. Está de rastos o ímpeto original da força que nos move.

A genuinidade está confinada ao incentivo por retorno enquanto que a espontaneidade, essa, está adormecida, para não dizer que se evaporou de vez.
Então que genuinidade e espontaneidade são essas as que se escondem a fogem do mais lindo que há no mundo? O que se faz hoje de belo se o que de belo existe é feito com o carinho do que se é e com a ternura de um momento? E o que são mais esse carinho e essa ternura do que a genuinidade e a espontaneidade?

Onde está a doçura de uma criança ou de um adolescente que diz aos pais que um dia há-de ser o melhor do mundo em alguma coisa? Onde está essa criança ou esse adolescente passados uns anos? Oprimido na sombra de uma caverna, a procurar o fogo com duas pedras?

Que desastre então encontra o Homem nos dias de hoje quando olha para o futuro e nada vê a não ser o que tem de fazer, olhando para trás e nada vendo a não ser o que um dia ia ser!
Porque não busca então o que queria ser? Está à distância de um passo: o que separa o sonho da realização...

E preconizo de tal forma a busca de sonhos, que me sinto morto sempre que me sento. A não ser que isso seja o que sempre sonhei.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Luto

Tenho vivido horas de luto.
Não um luto pela morte de um ente-querido e muito menos um luto de preto. Um luto pela falta de vida na acção; um luto pela não-adolescência eterna de espírito.
É esse o luto que visto na minha cabeça.

A dor que acompanha este processo gera-se mais à volta da incompreensão do que da pena... Pena, sim, que poderia sentir por ver sentados os sonhos que por tudo deviam caminhar em frente. Pena me dá ao ver que árvores, enraizadas e pregadas à Terra, mais movimento têm do que sonhadores actuais.
É esta a dor que vivo actualmente. Talvez, em parte, se assemelhe ou nos faça lembrar a "Dor de Pensar"; talvez porque, de facto, é pensando que a sinto. Mas não se trata do processo em si, mas do resultado que obtenho quando me dedico a essa arte.
Ainda agora, dormindo me deixo afectar, quando do inconsciente brotam sonhos que mais parecem relatos em imagens do que agora escrevo.

E dói-me, tanto como ver pisar uma flor, aperceber-me de que não me soam mais os canhões ou os cânticos; talvez "As armas e os barões assinalados" tenham perdido todo o seu ímpeto.
Os canhões secaram de pólvora e os cânticos ficaram roucos, ou até mudos.

E quem cala essa voz? Pior: quem deixa que essa voz se cale? Quem deixa que fujam as notas e os tons dos gritos que nos confins da nossa vontade e nos interlúdios do nosso desespero nos soam a força?
É digno de sonhar aquele que baixa os braços e aperta os punhos da camisa, em vez de arregaçar as mangas e deitar abaixo, ao murro, as paredes da Ditadura onírica? Não.
E não me proponho aos julgamentos. Proponho-me aos apontamentos do que me passa diante dos olhos, levantando a poeira responsável pelas lágrimas que deles correm.

Qual será o sentido de existência se de um simples, livre e gratuito sonho nos vemos privados, sendo nós os próprios criadores e, simultaneamente, cobradores de impostos?


Ora, que maior desrespeito haverá pelo nosso próprio eu-adolescente que este o de fechar os olhos e as portas ao que sempre nos deu vontade de mudar o mundo?

E dói... Dói ver que de todos muros repressivos que ao longo da História encontramos, aquele que mais nos oprime é o que nós próprios criamos a nós; a muralha da China na nossa cabeça...
Pedras e mais pedras bloqueiam o nosso contacto com o que de mais belo produzimos e possuimos desde que abrimos pela primeira vez os olhos, até ao dia em que eternamente os fechamos... O sonho...