quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Luto II

Porque está morto o grito. Está de rastos o ímpeto original da força que nos move.

A genuinidade está confinada ao incentivo por retorno enquanto que a espontaneidade, essa, está adormecida, para não dizer que se evaporou de vez.
Então que genuinidade e espontaneidade são essas as que se escondem a fogem do mais lindo que há no mundo? O que se faz hoje de belo se o que de belo existe é feito com o carinho do que se é e com a ternura de um momento? E o que são mais esse carinho e essa ternura do que a genuinidade e a espontaneidade?

Onde está a doçura de uma criança ou de um adolescente que diz aos pais que um dia há-de ser o melhor do mundo em alguma coisa? Onde está essa criança ou esse adolescente passados uns anos? Oprimido na sombra de uma caverna, a procurar o fogo com duas pedras?

Que desastre então encontra o Homem nos dias de hoje quando olha para o futuro e nada vê a não ser o que tem de fazer, olhando para trás e nada vendo a não ser o que um dia ia ser!
Porque não busca então o que queria ser? Está à distância de um passo: o que separa o sonho da realização...

E preconizo de tal forma a busca de sonhos, que me sinto morto sempre que me sento. A não ser que isso seja o que sempre sonhei.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Luto

Tenho vivido horas de luto.
Não um luto pela morte de um ente-querido e muito menos um luto de preto. Um luto pela falta de vida na acção; um luto pela não-adolescência eterna de espírito.
É esse o luto que visto na minha cabeça.

A dor que acompanha este processo gera-se mais à volta da incompreensão do que da pena... Pena, sim, que poderia sentir por ver sentados os sonhos que por tudo deviam caminhar em frente. Pena me dá ao ver que árvores, enraizadas e pregadas à Terra, mais movimento têm do que sonhadores actuais.
É esta a dor que vivo actualmente. Talvez, em parte, se assemelhe ou nos faça lembrar a "Dor de Pensar"; talvez porque, de facto, é pensando que a sinto. Mas não se trata do processo em si, mas do resultado que obtenho quando me dedico a essa arte.
Ainda agora, dormindo me deixo afectar, quando do inconsciente brotam sonhos que mais parecem relatos em imagens do que agora escrevo.

E dói-me, tanto como ver pisar uma flor, aperceber-me de que não me soam mais os canhões ou os cânticos; talvez "As armas e os barões assinalados" tenham perdido todo o seu ímpeto.
Os canhões secaram de pólvora e os cânticos ficaram roucos, ou até mudos.

E quem cala essa voz? Pior: quem deixa que essa voz se cale? Quem deixa que fujam as notas e os tons dos gritos que nos confins da nossa vontade e nos interlúdios do nosso desespero nos soam a força?
É digno de sonhar aquele que baixa os braços e aperta os punhos da camisa, em vez de arregaçar as mangas e deitar abaixo, ao murro, as paredes da Ditadura onírica? Não.
E não me proponho aos julgamentos. Proponho-me aos apontamentos do que me passa diante dos olhos, levantando a poeira responsável pelas lágrimas que deles correm.

Qual será o sentido de existência se de um simples, livre e gratuito sonho nos vemos privados, sendo nós os próprios criadores e, simultaneamente, cobradores de impostos?


Ora, que maior desrespeito haverá pelo nosso próprio eu-adolescente que este o de fechar os olhos e as portas ao que sempre nos deu vontade de mudar o mundo?

E dói... Dói ver que de todos muros repressivos que ao longo da História encontramos, aquele que mais nos oprime é o que nós próprios criamos a nós; a muralha da China na nossa cabeça...
Pedras e mais pedras bloqueiam o nosso contacto com o que de mais belo produzimos e possuimos desde que abrimos pela primeira vez os olhos, até ao dia em que eternamente os fechamos... O sonho...